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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A cirurgia para correção de escoliose

Riselda Morais

Dr. Adriano Massayuki Yonezaki com a paciente e minha filha Gabriela
     Escoliose é um desvio da coluna para os lados, em forma forma de "S", a coluna pode sofrer uma rotação, a doença pode ser diagnosticada através de Rx da coluna e pode ser tratada com sessões de RPG, uso de colete ou tratamento cirúrgico se estiver medindo mais de 40º.
Há dois anos atrás descobri que minha filha tinha escoliose. Até o diagnóstico eu nunca tinha ouvido falar nesta doença, faltava-me informações a respeito. Quando descobri que a Gabriela tinha escoliose fiquei desesperada, por falta de conhecimentos entrei em pânico e parecia-me que aquele era o único caso do mundo, por isto, estou inserindo este tópico, não como jornalista, mas como mãe para levar informações a outras pessoas que estejam se sentindo como me senti. A descoberta da doença se deu quando minha filha já tinha mais de doze anos e antes não havia nenhum sintoma, nada que levasse eu e meu marido a imaginar que nossa filha fosse ser acometida por essa doença. Achando que poderíamos ter deixado de prestar atenção nela em algum momento, a levamos ao pediatra para sabermos se ele, em algum momento havia percebido a doença e recebemos uma negativa. Pensamos em muitas possibilidades para sabermos o que poderia ter causado aquele desvio na coluna de nossa criança, entre as possibilidades estava o peso da mochila escolar, que era pesada para uma criança carregar. A partir daí, levamos a Gabriela em vários médicos e o diagnóstico era sempre o mesmo, "escoliose", o caso dela é cirúrgico. Ficávamos inconformados, chorávamos só de imaginar que nossa filha iria passar por uma cirurgia. Muitos medos surgiram, dúvidas e inúmeras perguntas. Pesquisamos na internet para obtermos informações sobre a doença e a levamos em mais de dez ortopedistas para ouvirmos suas opiniões e nada era satisfatório. Uma frase que nos aterrorizava era: "É uma cirurgia de alto risco, se houver lesão na medula ela pode ficar paralítica". Ah, baixava o desespero e as lágrimas faziam-se nossas companheiras.
Em um momento iluminado por Deus, marquei uma consulta com um médico ortopedista e traumatologista, especialista em coluna e a levei.
Nesta primeira consulta com Dr. Adriano, os mitos começaram a ser desfeitos, o enchi de perguntas e ele respondia a tudo com clareza, paciência, atenção e muita honestidade. O diagnóstico foi de que tratava-se de uma escoliose idiopática, sem uma causa específica.
A partir daí tomei conhecimento que a escoliose é uma doença antiga e que pode aparecer em qualquer idade, mas acentua-se ou aparece com o crescimento e que na maioria dos casos, aparece na adolescência.
Só percebia-se que a Gabriela tinha escoliose quando ela inclinava-se para a frente, assim podia-se verificar que suas costas não estavam em nível, um dos lados estava mais elevado que o outro e quando em pé, de frente, percebia-se que os ombros não estavam nivelados, um estava mais baixo que o outro. Ela não reclamava de dor, apenas descoforto nas costas e sempre pedia-me massagens.
O Dr. Adriano solicitou um Rx Panorâmico (é feito de toda a coluna, sem cortes, em um único filme) e foi aí que depois de ligar para dezenas de lugares que realizava exames de radiologia, descobri que nesta imensa cidade que é São Paulo, só dois lugares o realizava, um no Ibirapuera e o outro no Hospital Paulistano. Fomos ao Paulistano. Com o Rx em mãos o médico mediu os graus, estava em 46º. Nos explicou que até 40º pode-se fazer uso de colete, mas no caso dela não adiantava. Diante de nossa resistência a cirurgia ele prescreveu RPG e recomendou que ela continuasse fazendo natação, como já fazia três vezes por semana, para relaxar, alongar e fortalecer a musculatura na tentativa de segurar a coluna. Durante o tempo que ela fez as sessões de RPG (Reeducação Postural Global) a escoliose oscilou, em um mês diminuiu oito graus e no mês seguinte aumentou dez graus, o ápice, chegando a 53º. Não tínhamos saída, o caso era realmente cirúrgico.
O cirurgião nos explicou que a cirurgia é de grande porte, poderia durar até oito horas e é de risco." Toda cirurgia tem risco", disse ele. Nossa maior preocupação era que a cirurgia causasse perda de movimentos, foi aí que ele nos explicou que para evitar qualquer lesão neurológica, a cirurgia para correção de escoliose pode ser monitorada, trata-se de outro médico que coloca eletrôdos no paciente e o monitora através de um computador, garantindo que a correção será feita sem prejudicar os movimentos do paciente, a medula não é comprimida. Planos de saúde não pagam o monitoramento, mas ficamos certos que ela só faria a cirurgia com a monitoração. Outra atitude do médico que nos traqüilizou e nos levou a confiar muito nele, foi retirar uma câmera fotográfica de sua mochila e nos mostrar algumas fotos, as costas de adolescentes, meninas (a escoliose acomete mais as mulheres) da idade de minha filha, antes e depois da cirurgia e algumas fotos feitas durante a cirurgia, nos mostrava com detalhes os procedimentos da cirurgia, a colocação de hastes de titâneo, enxertos ósseos e parafusos colocados na coluna da paciente. Em todas as consultas que nos mostrou fotos das cirurgias eu sempre perguntava: - " E correu tudo bem"?. A resposta era sempre positiva, com um leve sorriso de satisfação, reação de quem conhecia sua própria competência. Uma única vez ele disse que uma garota que estava com mais de 100º de escoliose, depois de cirurgia uma haste havia soltado, bem eram graus demais.
Durante duas semanas a Gabriela passou com o pediatra, cardiologista e clínico geral fazendo exames pré-operatórios. O clínico descobriu que o pulmão direito dela já não expandia tanto quanto o esquerdo devido a escoliose, a curva da coluna comprimia o pulmão.
Na sexta-feira, 08/02/2008 às 10:00 hs internei a Gabriela no Hospital Paulistano para realizar a cirurgia no sábado 09/02 às 7:00 hs da manhã. A confiança de que tudo ia correr bem estava em 100%, estávamos preparadas psicológicamente, ela queria muito a cirurgia e estava nas mãos de um médico que por quase dois anos nos deu provas de sua competência. Sempre que o ouvia falando da cirurgia, mostrando detalhes, pensava: "Bendito seja Deus, que te concedeu mais que inteligência e conhecimentos, Ele te concedeu o dom de curar. Suas atitudes são de quem ama o que faz".
A noite foi longa, não conseguimos dormir. Ela ouvia o MP4, usava o celular, via TV e conversava comigo o tempo todo. Quando eu dizia-lhe para dormir, ela respondia: "Não mamãe, já vou dormir muito com a anestesia amanhã". As seis da manhã meu marido chegou e ficou conosco no quarto. Antes das sete da manhã, o pessoal do centro cirúrgico veio buscá-la. Fomos juntos do primeiro para o quinto andar, ela entrou para o centro e nós ficamos na sala. Poucos minutos se passaram e uma enfermeira veio buscar-me para ficar com ela, estava agitada, procurei acalmá-la. Logo, três membros da equipe do médico dela se aproximaram e começaram a conversar conosco. Era o anestesista, um membro do monitoramento e um médico, mas o Dr. Adriano ainda não havia chegado, os médicos deram início a alguns procedimentos básicos, fizeram-me perguntas, queriam saber se ela era alérgica a medicamentos e por fim, disseram: - Mãe, agora ela fica com a gente, a senhora pode ir". Este foi um momento difícil, por um instante queria colocá-la em meu ventre outra vez e não deixar ninguém chegar perto. Mas, não pudia deixar que ela percebesse, então a beijei e disse-lhe: - Te amo filha, seja forte, corajosa, a minha guerreira! Ela me deu um sorriso.
Na sala de espera perguntei para a recepcionista dos médicos se o médico dela havia chegado, ela olhou na lista e falou o nome de mais dois médicos que já se encontravam lá, mas o Dr. Adriano ainda não. Fiquei preocupada. - Fique tranqüila, primeiro chega a equipe e vai adiantando, os bam bam bam só chegam quando já é para agir mesmo", disse ela.
O sábado foi o dia mais longo de minha vida, ela entrou no centro cirúrgico as 7:00 hs e saiu às 16:30hs. As horas passaram a ter 90 minutos para mim, por mais que controlasse meus medos, eles me fizeram companhia e precisava fortalecer meu marido, dizendo-lhe que ia dar tudo certo. De vez em quando pedia para telefonarem no cirúrgico e perguntarem como a Gabriela estava, a resposta era que ela passava bem, mas a cirurgia ia demorar a acabar. Depois informaram que poderia terminar entre duas e três horas. Algum tempo depois o médico responsável pelo monitoramento saiu com uma mala enorme de equipamentos e veio falar conosco:
- Correu tudo como vocês queriam, está tudo perfeitinho como o esperado, nos tranqüilizou.
- Ela está com todos os movimentos e sem lesões neurológicas? - Perguntei.
- Sim, correu tudo bem, ela vai demorar a sair ainda, porque estão fechando, sabe como é, por camadas.
As quatro e meia da tarde a Gabriela saiu do centro cirúrgico, estava com os lábios brancos, pálida, gelada e tremia muito devido ao efeito da anestesia passando. Deixaram-nos falar com ela, estava meio confusa, mas consciente e se movimentando, a levaram para a UTI - Unidade de Terapia Intensiva onde ela teve que ficar durante 24 horas após a cirurgia. Logo a equipe médica veio falar conosco: - "Correu tudo bem", disse Dr. Adriano, que segurava um raio x da coluna dela depois da cirurgia.
- Deu tudo certo, né doutor? - perguntou meu marido.
- A primeira coisa que ela fez quando estava acordando da anestesia foi se espriguiçar, mexeu os pés e as mãos. - disse sorrindo o Dr. Luciano, membro da equipe.
Bom, não nego que olhei o raio x com admiração, um trabalho muito bem feito a colocação das duas hastes com quinze parafusos de titânio.
Permitiram que eu ficasse dentro da UTI. Fiquei aflita com a Gabriela coberta com dois cobertores térmicos, tremendo e me pedindo para colocar-lhe uma meia.
- Logo o frio passa mãe e ela vai pedir para tirar os cobertores, o centro cirúrgico é muito frio, a cirurgia foi longa, é o efeito da anestesia passando, disse-me um membro da UTI que a acompanhou durante e depois da cirurgia, ficando na UTI.
Uma enfermeira quis me convencer que seria melhor eu sair, mas fui enfática:
- Só saio daqui quando ela parar de tremer, a pressão (8x3) estabilizar e ela estiver dormindo.
É eles me deixaram lá e assim aconteceu.
No domingo, ficamos com ela das onze às onze e meia e quando chegamos na UTI na visita das 17:00 hs às 17:30 hs ela estava assistindo o jogo do Corinthians e vibrando por que ele estava ganhando. Foi uma alegria. Por volta das 18:30 hs ela foi para o quarto 124, onde fiquei com ela. A recuperação rápida me surpreende a cada dia, na segunda-feira ela já caminhou pelos corredores do hospital e na terça-feira teve alta. Na sexta-feira, 15/02 fizemos uma visita ao médico que nos explicou o procedimento realizado, olhou a cirugia que está cicatrizando muito bem, já que foram feitos pontos internos (tipo de plástica). Nesta noite de segunda-feira, 18/02 ela comemorou porque conseguiu deitar de lado, sem o encosto que usava desde que chegou do hospital, fizemos foto e nos alegramos com cada momento dela, cada sinal de recuperação, cada coisa simples que ela fazia sem sacrifícios antes da cirurgia, e agora no pós-operatório sentia dores ou medo de fazer. Cada momento, um vitória nas coisas mais simples.
Ela pode levar uma vida completamente normal, comer de tudo exceto pedra.
Março: - Gaby voltou a escola na primeira semana de março, mais precisamente dia 10 e já recuperou as matérias e as notas perdidas durante o mês que ficou de repouso.
Abril: - No final de abril dançou durante festa de comemoração dos seus quinze anos e não sentiu nenhuma dor.
(Fotos em nossos álbuns do orkut - Riselda Morais e ou Gaby Malta).
Na rotina diária: - Diz que as vezes até esquece que passou por uma cirurgia na coluna.

Álbum da recuperação da Gaby:http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=381172120215251444&aid=1222085885


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